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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

descrição de um falso suicídio

Eu estava na segunda casa dos meus pais, na serra, após ter passado a madrugada bebendo, chorando e andando na rua sozinha. O sol já chegava. Ele chegava como ele chega na maioria dos dias, sorrindo para a felicidade como quem diz 'olá' para tudo que vê. Diante da minha embriaguez e da minha 'educação' resolvi dizer 'olá' também ao sol, ele me parecia simpático. Eu chorava e praguejava tudo que fez da minha vida um inferno, e contava ao vento todo o meu sofrimento... por algum motivo eu sentia e ouvia as suas respostas. De tanto andar eu já descia a serra, andando bem de vagar, sem saber ao certo para onde eu ia. O dia era claro, já deviam ser sete da manhã e eu me perguntava o meu valor, me perguntava o que fazia ali, me perguntava por quê bebia, me perguntava onde estava minha alma, e por quê eu havia deixado meu coração para todos eles. Meu celular não estava comigo, imaginava o que se passava pela cabeça de todos, imaginava onde estava o meu rumo, e pensava no por quê dos carros estarem andando tão de vagar. Era tudo muito estranho, a minha tontura já invadia as ruas, eu já nem sabia mais onde estava meu coração. Era tudo tão vazio e sem alma, inclusive eu. A paisagem  da serra começava a aparecer, era linda. Onde eu estava era bem alto, lá embaixo tinha arvores e muitas pedras. Resolvi enquanto andar, conversar com a paisagem também.
A partir de um tempo, de tanto praguejar, senti o vento aumentar, senti as folhas subirem, senti o sol se esconder atrás de uma nuvem negra, e de repente senti muitos dos deuses castigando meu pensamento injusto de garota desiludida com a vida. Me sentia velha, como se já tivesse passado mais de quarenta anos em apenas vinte, e de repente o mundo pareceu parar de girar: o barulho cessou, os ventos baixaram e pararam, as nuvens pararam de se mover. Uma musica em violino de repente em meus ouvidos, só senti meus olhos fecharem de vagar, e por um instante me vi flutuando, deitada no vento e chorando. A velocidade e a pressão começava a passar pelo meu corpo e eu já sentia dificuldades para respirar. Eu havia me jogado nas pedras e nas árvores que tão baixas eram. Apenas me voltava uma frase dita uma vez por mim ao meu atual noivo, mas que na época era apenas namorado: "A morte as vezes chama, mas falta coragem de encontrá-la." Eu chorava de soluçar, e rapidamente a única coisa que eu fui capaz de sentir, foi uma dor insuportável que durou dois segundos e depois tudo apagou. E ali meu corpo ficou, e dali nunca mais saí, e dali em diante todos os outros me deram valor, e ali tudo acabou. E eu realmente vi o quanto eu fui idiota e como fui capaz de acabar com uma vida inteira por motivos tão supérfluos e desnecessários, mas só assim fui capaz de enxergar a escuridão que todos me jogaram. Ali eu tive meu epílogo. E ali eu tive fim.

3 comentários:

  1. Quanta saudade dos teus textos,de vir aqui e me sentir bem ! Juh,sabes o potencial que tens.Esse em especial,está incrível!Talvez porque estive me sentindo assim dia desses.
    Saudade ! Parabéns ! Me orgulha muito ! *-*

    #irmandade

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  2. Maah e Bia . Saudades de vcs ): Obriigada . *-*

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