Baseado no texto "Um guarda-chuva, e um sorriso", por Fernando Franco e Neto Menezes

Eram exatamente 4:30 da tarde naquele triste e frio dia, quando eu resolvi descarregar minhas emoções. As ruas se apresentavam vazias e, dentro das casas, luzes apagadas. Talvez aquelas pessoas estivessem dormindo ou aproveitando suas vidas vazias.
Era possível sentir a garoa e o vento frio que sopravam os poucos rostos visíveis naquele triste dia. Também era possível observar o asfalto úmido e ouvir o barulho das rodas dos carros correndo em cima do asfalto molhado. Ao mesmo tempo era impossível ouvir ou sentir a tempestade chegando. Pelo menos não com a minha cabeça tão longe como estava.
Naquele dia, eu me sentia triste solitária, e resolvi compartilhar com a chuva os meus sentimentos.
Andei por muitos quilômetros e o silêncio das ruas ecoavam a verdade dos meus erros em minha cabeça.
Era lindo parar por uns instantes e observar as gotículas de água tocarem levemente o chão. Era como se eu colocasse para fora cada lágrima que eu prendi durante tanto tempo.
Naqueles instantes onde eu sorria sozinha admirando as belezas mais simples da natureza, senti meu bolso vibrar, era meu celular. Eu havia recebido uma linda mensagem de um grande amigo, onde dizia: "Não se culpe pelo que anda acontecendo, é passageiro. Sobre as saudades que sente, contente-se com as lembranças, pelo menos você as fez existir. E sobre a dor que você sente agora, ela te fortalecerá no futuro."
Não sei se era o meu sono eu apenas o ébrio que não me deixara captar tal mensagem de relance. Mas depois de tanto refletir, depois de longas horas naquele frio, senti a intenção de tal amigo. Senti vontade de me comunicar com ele, mas o seu telefone parecia estar desligado. Me senti só, mais uma vez. E então continuei com meu lindo devaneio.
Durante um bom tempo parada e observando a chuva que parecia sempre crescer, havia passado um um garoto que como tudo naquele ambiente, era triste e preto e branco. Nos seus olhos castanhos e vazios se apresentavam uma grande tristeza. Mas nos seus lábios levemente avermelhados, apresentava-se um lindo e singelo sorriso.
Embora eu estivesse numa tristeza profunda e não conseguisse reagir a muita coisa, consegui retribuir o belo sorriso que ganhara.
Ele andava em minha direção e sentou-se ao meu lado. Durante alguns minutos nos mantemos calados, mas logo a pergunta mais óbvia veio à tona:
- O que fazes aqui? - perguntou ele delicadamente com um jeito amigável.
- Admiro os pingos de chuva e desabafo com eles, eles parecem me entender mais que tudo. - Respondi.
- Mas sobre o que desabafas?
- O vazio das pessoas, a forma de me ignorar, a falta que eu sinto de algumas coisas, o vazio que se encontra dentro de mim, a solidão que me atormenta, as perdas que tive recentemente, o silêncio dos meus sentidos, entre outros.
- Mas se reclamas do vazio e da solidão, o que fazes aqui tentando se isolar?
- Eu ando procurando coisas e pessoas que me ajudem, mas elas não querem me ouvir, são coisas fúteis que me incentivam a fazer. -Respondi abaixando a cabeça,
O silêncio mais uma vez tomou conta daquele ambiente. Até que resolvi o quebrar.
- De onde vens? - Perguntei. Mas ele não respondeu. Perguntei seu nome, mas eu não me lembro bem. Talvez fosse algo parecido com Pietro, Pedro, ou coisa assim. Sempre esqueço o nome das pessoas mais me marcam.
Durante horas conversamos sobre nossos problemas e depois de bastante tempo ele começou a responder as minhas curiosidades. Vi então que ele tinha problemas iguais e maiores que os meus, e que tinha vergonha disso. Aquilo me comoveu, e por mais tempo conversamos.
Já era noitinha quando lembramos da hora e do perigo das ruas. A chuva já havia parado, mas o chão ainda era lindamente úmido.

Ele andou comigo por mais bastante tempo e, pela momentânea amizade que criamos naquele triste dia, nos abraçamos, e fomos assim até o ponto de ônibus que parecia ser longe, embora o tempo tenha passado rápido.
Naquele caminho, ele me contara sobre o que gostava de fazer quando estava triste e o dia era chuvoso e frio. Ele gostava de dançar na chuva de olhos fechados e braços abertos e admirando a textura dos pingos de água que caiam do céu. Eu ri, ao mesmo tempo que achei belo.
Quando chegamos ao ponto, nós conversávamos como amigos de séculos, quando havíamos nos conhecido poucas horas antes.
E enfim o meu ônibus finalmente parecia estar chegando, foi rápido, só tivemos a chance de dizer 'adeus'. Pelo menos tivemos a oportunidade, muitas pessoas se vão sem a chance de se despedir.
Ao entrar no ônibus, eu já sorria, aquele menino realmente havia me alegrado. Entrei no ônibus. Quando olhei para a janela, ele sorriu pra mim e acenou. Sorri para ele, e o ônibus começou a andar devagar. Olhei para a outra janela, parecia chover novamente. Olhei para trás e o vi dançando de braços abertos e olhos fechados na chuva. Gargalhei por alguns instantes sem pensar nos outros ao meu redor. Me olhavam de cara estranha, mas pouco me importei. Aquela pessoa havia mudado tudo pra mim.
Hoje já faz quase uma ano que isso aconteceu e é como se ele ainda existisse dentro de mim. Toda vez que parece chover, me sinto mais feliz. E quando estou vagando pelas ruas e chove, faço questão de dançar de olhos fechados e braços abertos, como aquela criaturinha havia me ensinado.
Sinto falta dele, mas toda vez que me lembro dele, consigo um motivo pra sorrir. é como se as flores pudessem rir para mim. É como se ele estivesse perto de mim.
Uma gota de chuva, e um sorriso.